sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Reformador Martinho Lutero



O Reformador Martinho Lutero
São poucos os heróis da fé que durante a história do cristianismo
têm sido examinados tanto como Martinho Lutero. Para
muitos católicos e céticos, Lutero é o “bicho-papão que destruiu a
unidade da igreja, a besta selvagem que pisou na vinha do Senhor,
um monge renegado que se dedicou a destruir as bases da vida
monástica”. Para outros, no entanto, ele é o grande reformador
de uma igreja corrompida, o grande herói que fez voltar, uma vez
mais, a pregação do evangelho puro.
Ao estudar a vida de Lutero e também sua obra, uma coisa
fica bem clara: a tão esperada reforma se produziu, não porque
Lutero ou outra pessoa se havia proposto a isso, mas porque ele
chegou no momento oportuno e porque nesse momento o Reformador,
e muitos outros junto dele, estiveram dispostos a cumprir
sua responsabilidade histórica.
Segundo a tradição, João Huss na hora de seu martírio
disse aos espectadores aos gritos a seguinte fraze: “Podem matar o ganso (que significa “huss” em sua língua),
mas daqui a cem anos surgirá um cisne que não poderão
queimar”.
Segundo a história, cem anos após a morte de João Huss,
Lutero nasceu, no dia 10 de novembro em 1483, em Eisleben, Alemanha,
onde seu pai, de origem camponesa, trabalhava nas minas.
Sua infância não foi feliz, porque seus pais foram extremamente
duros com ele e, muitos anos mais tarde, ele mesmo contava com
amargura alguns dos castigos que lhe tinham sido impostos. Suas
primeiras experiências no colégio não foram melhores, pois também
posteriormente se queixava de como o tinham golpeado por
não saber suas lições. Se bem que não se deva exagerar em tudo
isso, não resta dúvida que essas situações deixaram marcas permanentes
no caráter do jovem Martinho.
Sua primeira vocação
Em julho de 1505, pouco antes de completar os 22 anos de
idade, Lutero ingressou no mosteiro agostiniano de Erfurt. Tempos
depois, ele mesmo revelou que os rigores do seu lar o levaram
ao mosteiro. Por outro lado, seu pai havia decidido que seu
filho se tornasse um advogado e fazia grandes esforços para lhe
dar uma educação adequada a essa carreira. Lutero não queria ser
advogado e, portanto, é muito possível que, ainda sem saber, havia
interposto a vocação monástica entre seus próprios desejos e os
projetos de seu pai, que se mostrou profundamente irado ao receber
notícias do ingresso de Martinho no mosteiro e demorou
muito tempo para perdoá-lo. Mas para Lutero, a vida presente
não parecia ser mais que uma preparação e prova para a vida vindoura.
Logo seria tolice dedicar-se a ganhar prestígio e riquezasno presente, mePdiraonibtei daa a ad vcoocmaceirac,i ae ldizeascçãuoidar do futuro. Lutero
entrou no mosteiro como fiel filho da igreja, com o propósito de
utilizar os meios de salvação que a igreja lhe oferecia e dos quais o
mais seguro lhe parecia ser a vida monástica.
Muitas vezes se tem dito entre os protestantes que Lutero
não conhecia a Bíblia e que foi, no momento de sua conversão, ou
pouco antes, que começou a estudá-la, mas isso não é certo. Como
monge que tinha de recitar as horas canônicas de oração, Lutero
sabia o Saltério de memória. E além disso, em 1512 ele obteve seu
doutorado em teologia e, para tanto, teria que ter estudado as Escrituras.
O que é certo é que quando se viu obrigado a preparar
conferências sobre a Bíblia, Lutero começou a ver nela uma possível
resposta para suas angústias espirituais. Em meados de 1513,
começou a dar aulas sobre os Salmos. Este foi o princípio de sua
grande descoberta.

Uma grande descoberta
A grande descoberta veio provavelmente em 1515, quando
Lutero começou a dar conferências sobre a epístola de Romanos,
pois ele mesmo disse, depois, que foi no primeiro capítulo dessa
epístola onde encontrou a resposta para as suas dificuldades. Essa
resposta não veio facilmente. Não ocorreu simplesmente que,
num bom dia, Lutero abriu sua Bíblia no primeiro capítulo de
Romanos e descobriu ali que “o justo viverá pela fé”. Segundo ele
mesmo conta, a grande descoberta foi precedida por uma grande
luta e uma amarga angústia, pois a epístola aos Romanos (1.17)
começa dizendo que: “no evangelho a justiça de Deus se revela”.
Segundo este texto, o evangelho é a revelação da justiça de Deus.
E era precisamente a justiça de Deus que Lutero não podia tolerar.
Se o evangelho fosse a mensagem de que Deus não é justo, Lutero
não teria tido problemas. Porém este texto relaciona indissoluvelmente
a justiça de Deus com o evangelho. Segundo Lutero conta, ele odiava a frase “a justiça de Deus” e esteve meditando nela dia
e noite para compreender a relação entre as duas partes do versículo
que começa afirmando que “no evangelho a justiça de Deus
se revela” e conclui dizendo que “o justo viverá pela fé”.
A resposta foi surpreendente. Em consequência, continua
comentando Lutero sobre sua descoberta, “senti que havia nascido
de novo e que as portas do paraíso me haviam sido abertas.
As Escrituras todas tiveram um novo sentido. E a partir de então
a frase “a justiça de Deus” não me encheu mais de ódio, mas se
tornou indizivelmente doce em virtude de um grande amor”.
Sua visita a Roma
Quando esteve visitando Roma, sofreu uma terrível decepção
com a imoralidade a que a cidade, sede do cristianismo,
estava entregue, principalmente os clérigos. Suas convicções acerca
da estrutura da instituição a que pertencia começaram a ruir,
e a doutrina da justificação pela fé, foi se consolidando em seu
coração à medida que mergulhava no estudo do Novo Testamento,
principalmente das epístolas pastorais e doutrinárias, ouvindo
através das mesmas a doce voz do Espírito Santo “Todavia, o meu
justo viverá da fé...” Hb. 10.38, Rm. 5.1, Gl. 2.16-21, etc. No famoso
concílio de Latrão, realizado em 1516, exortou os líderes e
sacerdotes, buscando conscientizá-los da necessidade de viverem
de acordo com a moral cristã, por eles proclamada verbalmente,
mas longe de praticá-las, comprometendo assim a credibilidade
do Evangelho com suas atitudes devassas.
As Indulgências e as 95 teses
Se não fosse a pregação imoral e profana da Igreja Romana,
as indulgências, defendida e propagada e comercializada pelos
mensageiros do papa Leão X, diz-se que a Reforma não teria surgido tão rápido Pnrao Aibliedmaa an hcoam, teorrcniaanlidzoa-çsãeo um brado de revolta,
que logo se estenderia por muitos países. Lutero perdeu a paciência
com esta pregação que proclamava as “indulgências” como
meio de salvação, afixando na porta da Catedral de Wittemberg,
suas famosas 95 teses, onde expunha os contrastes da Bíblia com a
Igreja Romana.
“O ouro é o tesouro, e aquele que o possui tem tudo de que
se necessita no mundo, como ele tem também o meio de resgatar
as almas do purgatório e de as chamar ao paraíso”
Cristóvão Colombo se referindo às Indulgências
Segundo a Igreja Católica, define-se que doutrina das indulgências
significa “remissão das penas temporais merecidas
pelo pecador, em todo ou em parte, fora da confissão”. Observe
abaixo parte de um texto apresentando o perdão ao pecador que
comprasse as indulgências:
“Que o nosso Senhor Jesus Cristo, tenha misericórdia
convosco e vos absolva pelos méritos de sua santíssima paixão.
E eu, pela sua autoridade e a dos seus santos apóstolos Pedro e
Paulo, pela sua autoridade e a do santíssimo Papa, dada a concedida
a mim nestas partes, vos absolvo, primeiramente de todas as
censuras eclesiásticas, seja qual for o modo que incorrestes nelas;
depois de todos os vossos pecados, transgressões e excessos, por
enormes que sejam, mesmo dos que são reservados para o conhecimento
da Santa Sé, e até onde se estendam as chaves da santa
igreja. Eu vos remito todas as penas... de sorte que quando morrerdes
logo, esta graça ficará em força ampla quando estiverdes ao
pondo de morrer. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
As indulgências foram inventadas no século XI, por São
Tomaz de Aquino, conforme ensina a tradição. Contudo no século XVI, o Papa Leão X, devido à grande necessidade de obter uma
elevada soma de dinheiro para completar as obras do templo de
S. Pedro em Roma, contratou hábeis pregadores para comercializar
o produto que assegurava salvação e total perdão dos pecados.
Dentre esses, destacou-se João Tetzel, que em nome do papa
percorreu a Alemanha vendendo as cartas (indulgências), assinadas
pelo pontífice, as quais, dizia, possuíam o poder de conceder
o perdão de todos os pecados, não só aos possuidores da carta,
mas também aos amigos, em cujos nomes fossem compradas e até
mesmo dos parentes mortos. Tetzel bradava:
“Padres, nobres, mercadores, esposas, rapazes, moças, ouvi
vossos pais e amigos já mortos, gritando-vos ao abismo profundo.
‘ Nós estamos sofrendo um martírio terrível. Uma pequena esmola
poderia salvar-nos; vós podeis dá-la e, contudo não quereis
fazer! ’ Ouvi esses gritos... Como sois surdos e desleixados! Com
uma significante quantia podeis livrar o vosso pai do purgatório,
e, apesar disso, sois tão ingratos que não comprais a sua liberdade!
No dia do juízo sereis castigados tanto mais severamente
por terdes desprezado tão grande salvação. Vinde e eu vos darei
cartas munidas de selos, pelas quais todos os vossos pecados vos
serão perdoados, mesmo os que desejais cometer no futuro... As
indulgências salvam não só os vivos, mas também os mortos. E
apenas a moeda tino no fundo do cofre, vossa alma será libertada
do purgatório para o Céu”.
Tetzel garantia que as indulgências que vendiam deixava o
pecador “mais limpo do que saíra do batismo”, ou “mais limpo do
que Adão antes de cair”, que “a cruz do vendedor de indulgências
tinha tanto poder como a cruz de Cristo”. moda, desde o dPiar oeimbi dqau ea oc o‘smereárficciao’l idzoauçãtoor Tomaz pôde descobrir
o tesouro dos méritos dos santos! Podem pecar à vontade;
isto é, roubar, assassinar, adulterar, pois que, tendo dinheiro para
remir essas transgressões das leis divinas e humanas, dinheiro que
chegue para fazer saltar a mola de tal tesouro dos papas, está garantida
a impunidade e regido o salvo-conduto de outros dias de
maiores crimes. As indulgências são a feira franca e permanente
da igreja: ela vende tudo. Vende o infame batismo, ao pecador
o perdão, ao amante direito de se casar, ao defunto a missa de
réquiem; vende orações, rosários, bentinhos, relíquias, amuletos.
O altar é um grande balcão, o papa o grande usuário. Os escribas
eram menos perversos, pois que os papas nem sequer se podem
chamar como Cristo chamou àqueles: sepulcros branqueados.”
Sanctis, L
Desde então Lutero, o Cisne que acreditava na justificação
pela fé, redigiu um discurso que foi lido possivelmente no Concílio
de Latrão, Roma, em 1516. Afirmando que:
“A maior e primeira de todas as preocupações – ah, se eu
pudesse inscrever com letra de fogo em vossos corações! É que os
ministros, antes de tudo, tragam ricamente a palavra da verdade.
O globo terrestre está repleto, sim, repleto até em profusão como
toda imundícia possível de doutrina. O povo é submetido a tantas
leis, a tantas opiniões de homens, sim, até mesmo a matérias supersticiosas;
é inundado por eles – não se pode dizer: ensinando
– de modo que a palavra da verdade praticamente nem sequer
mais sussurra, sim, em muitos lugares, nem sequer mais isso. O
que pode aí nascer, se é concebido com palavras de homens, e não
com a Palavra de Deus?! Como a palavra, assim o nascimento, assim
o povo”
Para Lutero, o estado apóstata da Igreja era fruto das inconseqüências
papais, ou lideranças da Igreja Católica. Tal a mensagem, tal seria o povo, tal o ensinamento, tal seria o princípio do
povo. A Palavra de homens, segundo ele, produziu um povo decadente
e apóstata, ao contrário do que poderia produzir a Palavra
de Deus. “Portanto permaneça firme esta tese: a igreja não nasce
nem pode resistir segundo sua essência, a não ser que seja através
da Palavra de Deus, pois assim está escrito: ‘Ele nos gerou pela
Palavra da Verdade’, Tg 1.18”.
Lutero, indignado com as indulgências e ensinos papais,
e tendo esgotados todos os meios de frear esse comércio atroz,
afixou suas famosas noventa e cinco teses na porta da igreja do
castelo de Wittemberg. Essas teses, escritas em latim, não tinham
o propósito de criar uma comoção religiosa. Para Lutero, se era
verdade que o papa tinha poderes para tirar uma alma do purgatório,
tinha que utilizar esse poder, não por razões tão vulgar
como a necessidade de fundos para construir uma igreja, mas
simplesmente por amor, e assim fazê-lo gratuitamente (tese 82). E
ainda mais, o certo é que o papa deveria dar do seu próprio dinheiro
aos pobres de quem os vendedores de indulgências tiravam,
mesmo que para isso tivesse que vender a Basílica de São Pedro
(tese 51).
Lutero deu a conhecer suas teses na véspera da festa de
Todos os Santos, e seu impacto foi tal que frequentemente se marca
essa data, 31 de outubro de 1517, como o começo da reforma
protestante. Os impressores produziram um grande número de
cópias das teses e as distribuíram por toda a Alemanha, tanto no
original latino, como em tradução alemã. O próprio Lutero havia
mandado uma cópia a Alberto de Brandeburgo, acompanhada
com uma carta muito respeitosa. Alberto enviou as teses e a carta
para Roma, pedindo a Leão X que interviesse. O imperador Maximiliano
se encolerizou diante das atitudes e dos ensinos daquele“monge impertinPernotiebi,d ea t aam cbomémer pceiadliiuz aaç Lãeoão X que interviesse.
Lutero é perseguido pelo papa
A resposta do papa foi pôr a questão debaixo da jurisdição
dos agostinhos, cuja próxima reunião capitular, teria lugar
em Heidelberg, e Lutero foi convocado. Para lá foi nosso monge,
temendo por sua vida, pois se dizia que seria condenado e queimado.
Porém para grande surpresa sua, muitos dos monges se
mostraram favoráveis a sua doutrina. Alguns dos mais jovens
acolheram entusiasticamente. Em consequência, Lutero regressou
a Wittemberg fortalecido pelo apoio de sua ordem e feliz por haver
ganhado vários conversos para sua causa.
O papa então tomou outro caminho. Em breve enviaria
Cajetano, para se entrevistar com Lutero e o obrigar a retratar-se.
Se o monge se negasse, deveria ser levado prisioneiro a Roma.
O leitor Frederico, o Sábio da Saxônia, obteve do imperador
Maximiliano um salvo-conduto para o frade, a quem se dispôs
a ajudar em Augsburgo, mesmo sabendo que pouco mais de
cem anos atrás e, em circunstâncias muito parecidas, João Huss
tinha sido queimado em violação a um salvo-conduto imperial.
A entrevista com Cajetano não produziu o resultado desejado.
O cardeal se negava a discutir com o monge e exigia sua
renúncia. O frade, por sua vez, não estava disposto a retratar-se,
se não fosse convencido de que estava errado. Quando por fim se
inteirou de que Cajetano tinha autoridade para arrastá-lo, ainda
que em violação do salvo-conduto imperial, abandonou a cidade
às escondidas no meio da noite, regressou a Wittemberg e apelou
a um concílio geral.
Durante todo este período, Frederico, não protegia Lutero
porque estava convencido de suas doutrinas, mas sim porque lhe
pareceu que a justiça exigia um julgamento correto. A principal
preocupação de Frederico era ser um governante justo e sábio. Com esse propósito fundou a Universidade de Wittemberg, onde
muitos dos professores lhe diziam que Lutero tinha razão, e que
se enganavam aqueles que o acusavam de heresia. Pelo menos, enquanto
Lutero não fosse condenado oficialmente, Frederico estava
disposto a evitar que se cometesse com ele uma injustiça semelhante
a que havia acontecido no caso de João Huss.